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DOIS PRA LÁ, DOIS PRA CÁ

Martinho da Vila e Diogo Nogueira estão sentados, um de frente para o outro, numa mesa de bar, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, perto de onde moram. Com a intimidade de um pai para um filho, de um mestre para um pupilo, Martinho lança:

– Diogo, você me conhece desde que nasceu, certo? Pois eu conheço você desde a barriga da sua mãe.

– Eu me lembro de encontrar você na casa do meu tio – responde Diogo, 32 anos. Você gostava de jogar sinuca e de fazer caranguejada, sirizada. Eu tinha uns 4, 5 anos. Ficava dentro d’água e você e meu pai, na beirada piscina, tomando uma cervejinha, jogando conversa fora.

– Eu lembro que o pessoal pensava em você mais no negócio do futebol. O João Nogueira era Flamengo doente, fechado. Ele sonhava com você jogando bola no Flamengo. Mas você acabou no outro campo.

– No outro gramado, no gramado do palco. Eu também achava que seria jogador. Gostava mesmo era de bola.

Reunidos pela revista da GOL, os dois começam a conversa com essas memórias de meados da década de 80. Martinho da Vila era um dos maiores vendedores de disco do país. O pai de Diogo, João Nogueira (1941–2000), era outro dos nomes fortes do samba, dono de uma obra respeitável, gravada por estrelas como Clara Nunes, Beth Carvalho, Elizeth Cardoso, Elis Regina e pelo próprio Martinho. Exatamente em 1985, usava seu 12º LP, De amor é bom, para militar pelo samba. “Inventaram a borracha da cultura/ E apagaram a memória nacional/ Deram um rabo de arraia na estrutura/ Dança rock no país do Carnaval”, ele resumia em “Jornal cantado”, terceira faixa do álbum. Àquela altura, o rock ascendia como música de massa e roubava algum espaço que antes estava ocupado por ritmos mais brasileiros.

Martinho da Vila e Diogo Nogueira

– No nosso tempo era difícil. Antes da gente, o samba não participava dos grandes eventos, dos grandes acontecimentos. Não era nem muito considerado um produto de consumo. Sambista não era capa de revista. Nem passava perto. Hoje o tempo é outro – conta Martinho.

– Hoje tudo é muito diferente – reitera Diogo. O samba não é mais marginalizado. Vocês construíram tudo isso. Fizeram com que o samba ganhasse respeito e deixaram todas as portas abertas para que a gente chegasse onde está hoje. Graças a vocês, a gente teve todas essas oportunidades, esses espaços tão melhores.

Um desses espaços é o projeto Nivea Viva o Samba, que homenageia o gênero e coloca no mesmo palco Diogo, Martinho, Alcione e Roberta Sá. “Os quatro representam, em conjunto ou individualmente, o que é o samba contemporâneo brasileiro”, diz Monique Gardenberg, diretora do projeto. Sobre Martinho, ela afirma: “Ele é o decano, representante de uma geração que, a partir dos anos 60, fez o samba renascer e o consolidou como o grande gênero da música brasileira urbana. Vindo do ambiente das escolas de samba, Martinho revolucionou o samba-enredo, trouxe o partido-alto, que até então era uma forma de samba marginal, para o primeiro plano. E assim fez o samba sobreviver no mercado de música.” Monique também capricha na síntese de Diogo: “Ele é um cantor excepcional, uma figura popular, tão necessária ao samba. Herdou o estilo sincopado que consagrou seu pai, João Nogueira, sucessor por sua vez de uma estirpe de cantores de bossa fundamental na história do samba: Ciro Monteiro, Vassourinho, Mario Reis”.

O projeto Nivea Viva o Samba vai percorrer seis cidades: Brasília, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. As apresentações acontecerão entre março e maio, sempre aos domingos, ao ar livre e com entrada gratuita. A primeira delas está programada para Porto Alegre; a última, para São Paulo.

Paralelamente a esses shows, Diogo corre com a turnê de Mais amor, seu álbum mais recente, lançado no ano passado. Com pouco mais de seis anos de carreira fonográfica (lançou o primeiro álbum, Ao vivo, no final de 2007) e cinco trabalhos gravados (três deles registrados ao vivo, um em Cuba), ele é um dos maiores vendedores de samba do país. Segundo os dados de sua gravadora, a EMI Music, já vendeu mais de 500 mil cópias, somando CDs e DVDs. O show de Mais amor, já é certo, vai ser registrado para gerar mais um DVD ao vivo, talvez ainda neste ano.

Diogo Nogueira

– Hoje em dia, o público prefere o DVD ao CD. Faz churrasquinho em casa e deixa rolando o show na TV. Tudo é DVD hoje. Tudo é imagem.

Martinho interrompe e aponta a tela de TV à frente de sua mesa: “Olha lá você”.

– Você vê? Nos bares, eles colocam televisão em todo canto com DVD de show. Lançamos o Mais amor há pouco tempo. Ainda estamos na [divulgação da] segunda música desse disco, gravamos um clipe para fortalecer essa faixa. A gente ainda não massificou algumas rádios, não massificou algumas televisões. Tem muita coisa para fazer. O Carnaval também ocupa espaço nesse cronograma. Como seu pai, Diogo faz parte da ala dos compositores da Portela. Nesse ofício, já passou por momentos inacreditáveis. O maior foi em 2007, quando viu seu primeiro sambaenredo entrar na avenida: “Os deuses do Olimpo na terra do Carnaval”.

– A gente nem tinha pretensão de ganhar. Éramos jovens compositores escrevendo para uma escola supertradicional que é a Portela. Mas a gente foi passando cada fase, sem ter dinheiro, sem ter torcida. E disputando com Monarco, com Mauro Diniz, com Serginho Procópio, com grandes bambas, caras já consagrados no mundo do samba-enredo. E a gente conseguiu ir até o final.

Melhor do que isso só o que aconteceu com Martinho da Vila. Em 2013, seu aniversário caiu num sábado de Carnaval, repetindo o acontecido de 1938, ano em que nasceu. O cantor comemorou a chegada dos 75 anos com os pés na avenida, desfilando justamente um samba de sua autoria, e a Unidos de Vila Isabel foi campeã do Carnaval carioca.

Martinho começou a chegar mais perto de Vila Isabel em 1966. No ano seguinte, escreveu o primeiro samba para a escola que lhe daria o sobrenome artístico – “da Vila” – que o acompanha até hoje, colocado em sua música como um selo de qualidade. Antes disso, sua primeira escola de samba foi a Aprendizes da Boca do Mato, da favela Boca do Mato, em Lins de Vasconcelos, próximo ao Méier. Nascido em Duas Barras, na região serrana do estado do Rio, ele ainda não tinha completado 5 anos quando a família se mudou para a capital fluminense. Crescido, foi desfilando na Aprendizes da Boca do Mato que estreou no Carnaval. E para ela escreveu os primeiros sambas-enredo.

Em 2014, Martinho vai estar fora da Sapucaí, mas não do samba. Nos próximos dias, ele deve lançar um álbum reunindo todos os sambas-enredo que escreveu. Com produção de Rildo Hora, ele mesmo já gravou um LP nesses moldes, em 1980. Batizado simplesmente de Samba Enredo, trazia clássicos do gênero, quase todos criados por outros autores.

Martinho da Vila

– Aquele disco eu fiz só por fazer, porque não queria fazer disco naquele ano. Achei que não ia interessar a muita gente. E foi um sucesso – diz o cantor. Agora, são registros somente de sambas que eu mesmo fiz: os que desfilaram pela Vila Isabel, os que perderam na quadra e os que eu fiz para a minha primeira escola de samba, a Aprendizes da Boca do Mato, que nem existe mais. O CD fica pronto agora, antes do Carnaval. O DVD sai logo depois.

Completando esse primeiro pacote, Martinho prepara um livro, o 12º de sua bibliografia, em que vai contar histórias sobre sambas e enredos. Não se trata de análise, ele diz. São causos, “coisas de todos os tipos, que eu vi acontecer nesses Carnavais todos”. Além de disco, DVD e livro, Martinho também vai estar no cinema. Ele é a estrela e o fio condutor do filme O samba, dirigido por Georges Gachot, ainda sem data de estreia definida. O cineasta francês é um apaixonado pelo Brasil e pela música feita no país e já produziu outros dois filmes na mesma pegada, Música é perfume e Rio sonata, documentários que traçam os perfis das cantoras Maria Bethânia e Nana Caymmi, respectivamente.

– Georges me procurou para fazer um filme sobre o samba. A ideia foi andando e ele já filmou dois Carnavais meus. Depois, fui filmar com ele na França. Não é um perfil meu. É o samba a partir do meu olhar. Eu já vi a pré-montagem, dei umas opiniões, mudei alguns cortes que não estavam ligando bem um assunto com o outro, colocamos mais umas músicas e agora está pronto.

E qual é o olhar de Martinho para o samba-enredo feito hoje? O gênero é pior do que foi no passado? Martinho desvia do saudosismo com elegância:

– Sempre houve sambas ruins e sambas bons. Todo ano surgem clássicos. O formato mudou muito. Mas sempre tem uns que rolam. No ano passado, ganhei o Carnaval com um que era muito diferente dos outros. Os leigos nem sempre percebem, as diferenças são para o cara que acompanha. Para esse, sempre vai haver samba bom.

Esta matéria foi publicada na edição 143 da revista de bordo da GOL, produzida pela editora TRIP.

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Tags: alcione, Barra Da Tijuca, Beth Carvalho, Borracha

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